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O Perto que não se vê: A pandemia sob os olhos de trabalhadores invisibilizados

Em meio a uma crise de rinite em uma manhã pandêmica de segunda, mais uma vez questionei se era apenas a poeira o que me sufocava ou se poderia ser um indício do Covid 19. Novamente, uma sequência de pensamentos ansiosos no enorme acervo que enfeitavam meus dias nesses tempos se iniciou, colocando em risco todos os prazos de entrega que a vida universitária me impunha, mas felizmente, tudo passou.

A chegada do vírus nos colocou em espaços introspectivos de paranoias que nunca pensamos ter de presenciar e eu ainda sentia com muita força todo o seu impacto, como se fosse novo. As máscaras lá fora, a inflação, as pessoas passando dificuldade e precisando se expor ao vírus para ganhar dinheiro… tudo era muito visível. Em um panorama geral, todos sabemos que as coisas andam difíceis e que não estão muito perto de melhorar, mas quanta atenção estamos dando para os problemas que não são nossos? Estamos enxergando os dilemas das pessoas que estão bem do nosso lado?

Pensando nisso, mergulhei em questões que não eram só minhas de forma mais íntima. Quis fazer todas as perguntas que não fiz a Marta, faxineira da primeira empresa onde estagiei na minha cidade natal durante todas as tardes dos dias úteis da semana, assim como ouvir os problemas que Adeilma, mãe doméstica de uma amiga, estava enfrentando bem próxima a mim, quando eu ainda nem me dava conta da proporção da pandemia. Também queria entender como o fotojornalista que eu seguia nas redes sociais estava se virando depois de ver em um de seus stories que, naquele mês, nenhum dinheiro havia entrado e igualmente, sentar com o meu pai e perguntar se ele estava bem com tudo aquilo. Escolhi histórias de pessoas com as quais convivia diariamente ou que topavam comigo vez ou outra e ofereci minha escuta para saber quais os impactos do vírus em suas formas de trabalho e as dificuldades monetárias e emocionais que isso gerou. Foi um processo desafiador e meio torto, onde eu sequer sabia por quem começar, mas no fim decidi que não importava muito, pois provavelmente as histórias tomariam seus próprios lugares sem que eu pudesse interferir.

Contrariando a ordem cronológica dos depoimentos apurados, começarei por Marta, a faxineira que conversava comigo quase todas as tardes nos intervalos do trabalho. A primeira dificuldade clara para nos comunicarmos na atual situação foi, sem dúvida alguma, o fato de não podermos nos ver pessoalmente. Quase todos os relatos aqui documentados, foram assistidos por chamada de vídeo na tentativa de manter uma responsabilidade sobre todos os envolvidos, mas Marta não tinha um aparelho com capacidade para tal função. Senti vontade de visitar a empresa de novo para enfim fazer todas as perguntas pessoalmente, e não só por isso, já que uma nostalgia repentina me acometeu, mas combinamos que se existiam outras formas de o fazer, seria melhor tentar.

Conversando com a secretária que me auxiliava em todas as minhas funções na época, pudemos acordar no empréstimo de seu aparelho celular para os fins devidos e a entrevista com Marta pode ocorrer sem muitos problemas (exceto, claro, a chuva do dia em questão, que bastou para tornar a chamada péssima).

Imagem: Cagepa/brejo.com

Marta estava no local de trabalho, ao lado de Geilza, a secretária, aproveitando do seu momento de desocupação para me ajudar de bom grado com o meu trabalho. Uma máscara lilás cobria o seu rosto e eu podia sentir sua ansiedade de longe ao passo que ela se apresentou devidamente. Com seus poucos 32 anos, Marta já estava há um bom tempo prestando serviços gerais à Cagepa de Guarabira. Mãe de dois filhos e casada, não deixou de externar sua preocupação para com os seus progenitores e seu esposo, principalmente tendo em vista que lidava diariamente com a sujeira e isso a colocava em uma posição um tanto quanto delicada.

— No início eu vinha trabalhar com muito medo porque eu tenho contato com várias pessoas e eu tinha que ter muito cuidado não só por mim, mas pela minha família e pelos meus colegas de trabalho.

Antes da entrevista ser concedida, Marta estava afastada da empresa por ter contraído a doença. Assim que começou a sentir os sintomas, a funcionária foi ao médico e conseguiu um atestado. Depois de alguns dias, voltou a trabalhar, mas ainda estava com o vírus ativo, então conseguiu prolongar o período em dez dias. Seu recolhimento durou vinte dias no total, mas logo precisou voltar às suas funções: — Independente do que seja, é inevitável trabalhar, Desde que começou tá sendo muito difícil, mas é o meu trabalho, eu tenho que enfrentar, pedir forças todos os dias.

Apesar da quarentena não ser uma opção para as pessoas que precisam trabalhar diariamente, Marta conta que sempre fez o possível para se proteger e proteger seus familiares e também faz um adendo à solidão que veio ao ser positivada para a doença: — Eu não tinha contato com meus filhos nem com meu marido. Estávamos todos afastados, mesmo estando perto. Foi um pouco triste.

Marta diz sentir falta de ir à missa, evento que ainda ocorre, mas atualmente é agendado e o horário não bate com o do seu trabalho. Ir a festas também é uma atividade que ela abdicou, embora seja algo que goste muito. No meio da conversa, relembrou uns tios que moram no Rio de Janeiro e que fazem muita falta, além de esboçar um desejo muito forte de reunir toda a família em casa de novo quando tudo acabar. Os cortes da má conexão não me impediram de notar o descontentamento de Marta com o fato de prioridade nenhuma ter sido atribuída às pessoas que trabalham na área da limpeza, em relação à vacina: — Eu acho que devemos melhorar muito em questões de saúde, a vacina deveria estar mais adiantada, principalmente para nós que trabalhamos. Todo mundo precisa, mas a gente tem um risco duplo. Nós que trabalhamos diretamente em contato com a sujeira, então...

Ela encerra, apesar de tudo, pensando muito positivamente sobre um futuro sem a doença: — A gente não se acostuma com coisa ruim, — diz — mas infelizmente, não é só eu que tô passando por isso. Mas eu tô bem graças a Deus, apesar dessa doença e dessa crise no mundo inteiro. Melhorei e sinto que as coisas vão melhorar também.

Adeilma, de 43 anos, também encerrou seus relatos agradecida, o que me leva a pensar que, na verdade, talvez a gente se acostume sim, mesmo sem querer. Ela costumava trabalhar como doméstica, mas parou assim que a pandemia surgiu. Coincidentemente, ficou grávida de seu oitavo filho no mesmo período, o que dificultou ainda mais a situação da família:

— Só ficou meu esposo trabalhando para manter a casa. Nisso passamos um pouco de dificuldade... Tinha dias que ele arrumava alguma coisa, outros que não. Ele é autônomo. Ainda trabalhou por 6 meses dedetizando. Foi assim que a gente se virou aos poucos. Nisso o contrato terminou e vieram as dificuldades. Tinha o enxoval do menino para comprar, que no início da gestação era uma menina (o médico errou), e tudo ficou difícil. Algumas coisas eu ganhei, me doaram, outras eu troquei do que já tinham me dado. Veio a ajuda das escolas que começaram a doar alimentos, os amigos do meu marido também ajudaram muito com a feira e essas coisas. Eu dei graças a Deus por ter tido muita ajuda. Com o dinheiro que ele arrumava a gente pagava o aluguel, a luz e essas coisas básicas. A gente ainda passa dificuldade, mas a sorte é que vez ou outra ele arruma uns bicos. Levi tá muito pequeno, já nasceu. Minha filha Vitória está com sete meses de gravidez e eu não tenho como sair pra trabalhar. Não sei o que faço.

Diferente de Marta, Adeilma não teve como seguir a quarentena direito quando pegou a doença e foi muito franca ao afirmar que em muitos casos, se resguardar é um luxo: — Sendo sincera? Muita gente chegava perto de mim e dizia “Fica em casa que tu tá doente, se o povo descobrir que tu tá assim vão denunciar”, e eu sempre falava que não podia fazer nada. É o jeito, sair de casa... se eu não sair de casa eu morro de fome. Ninguém vinha fazer por mim, a gente tem que sair pra pagar uma conta, fazer uma feira. Se eu não for, como a gente vai se virar? Às vezes uma das minhas filhas ia, meu marido também. Ele adoeceu também, mas não sei se foi Corona, ele não fez teste. Tinha coisas que eles não sabiam resolver, só eu, então eu precisava sair.

O vírus trouxe consigo muita miséria para as famílias mais carentes e com isso, o governo acabou sancionando o auxílio emergencial, uma renda provisória para ajudar os trabalhadores informais e famílias prejudicadas pelo Covid. O valor não chegava sequer a um salário mínimo (600,00), exceto pelas mães chefes de família, que recebiam o dobro (1.200,00). Falando sobre dinheiro e sobre o aumento do custo de vida, Adeilma afirma que recebia o auxílio emergencial, mas que nas últimas parcelas foi cortada, o que não fazia muito sentido, pois se encaixava em todos os requisitos:

— Eu recebia um pouco mais por ser mãe solteira. Não era suficiente, mas ajudava. Às vezes o dinheiro faz milagre, eu gasto com muitas coisas aqui em casa, não sei como consigo pagar tudo.

Ao falar sobre o governo que nos rege, Adeilma diz que nem sabe dizer ao certo se o que está sendo feito para pessoas como ela é o suficiente: — Muita gente precisava tirar e não tirou enquanto outras pessoas utilizavam em coisas sem necessidade. Eu achei errado, deveriam ter estudado mais antes de liberar esse dinheiro desde o início. Muita coisa não funcionava e o aplicativo era horrível, a gente acabava tendo de enfrentar fila e fazer aglomerações de todo jeito. Deveria ter sido mais organizado, por isso que na segunda demanda, muito dinheiro faltou, diminuiu o valor e muita gente ficou sem receber. Dessa última vez diminuíram ainda mais, não deu pra nada. Além de muita gente ter sido cortada, é muito pouco.

Conversando sobre os seus anseios e suas saudades, Adeilma se mostrou muito nostálgica ao falar do tempo em que trabalhava, colocando essa atividade com a coisa que ela mais quer fazer quando tudo isso acabar: — Eu sinto falta de muita coisa, muita falta em termos de família, já que a gente não pode estar sempre junto. Sinto falta do meu emprego também, eu queria trabalhar e poder ajudar dentro de casa porque é muito ruim. A gente quer comprar uma roupa, um calçado… Meu marido está sozinho, fica difícil pra um só.

Sua voz (a única coisa que eu pude avaliar, já que Adeilma ficou acanhada com a ideia de fazer uma chamada de vídeo), carregava um tom baixo ao conversar sobre as coisas que gostaria de fazer de novo. Apesar de relatar tantas dificuldades e de mostrar tristeza ao falar de tantos tópicos sensíveis, Adeilma seguiu pontuando lados positivos de todos os períodos conturbados e como em uma última confissão, se apoiando em sua fé ela disse: — Às vezes eu olhava pra um lado e pra o outro e pensava “Meu Deus, eu não tenho nada”, e aí de repente aparecia. Meu esposo chegava em casa e perguntava: “E agora, o que a gente vai comer?”, eu dizia “Seja o que Deus quiser”, quando ‘dava fé’, aparecia. Deus foi muito justo comigo.

E então me veio a reflexão do quão importante é ter algo no que acreditar nessas horas. Alguns não têm mais do que sua própria fé para se apegar quando estão em momentos difíceis, o que definitivamente é válido e acolhedor à sua maneira. Conquanto para outros, os grandes objetivos, suas paixões, trabalhos e interesses são suas formas de consolo, seus alimentos de alma. É o caso do Lucas Landau (@landau), fotojornalista do Rio de Janeiro, conhecido por traduzir as mazelas e maravilhas brasileiras aos seus olhos artísticos, usando as lentes de sua câmera como instrumento.

Era um sábado ensolarado na minha cidade, quando sob o silêncio da casa de uma amiga, conheci o rosto por trás das fotografias que eu admirava pela tela do celular (em momentos comuns de postergação, devo dizer). Lucas aparece sob o fundo monocromático de seu quarto no apartamento que divide com mais duas amigas, um cenário que contrastava bastante com a sua camiseta em um tom fechado de vermelho. Trazia consigo o sotaque carregado da capital fluminense e um semblante confiante escondido pelos óculos de armação ovalada. Trabalhou fotografando moda e fazendo fotojornalismo de 2013 a 2016, até que decidiu focar apenas na última modalidade, dando voz aos seus desejos mais íntimos e abdicando da segurança que as passarelas traziam para si. Entregou o apartamento em Copacabana, onde morou por oito anos sozinho, deu seus dois gatos para um casal de amigos e foi morar na casa de sua avó, onde passou os últimos quatro anos até chegar a sua morada atual. Reduzir a saída do dinheiro foi a solução que encontrou já que por amor escolheu reduzir, também, a entrada dele. Ironicamente, depois de tanto tempo hesitando em entrar de cabeça no meio fotojornalístico, Lucas foi recebido muito bem ao ter uma foto sua viralizando bem no início da sua entrega ao sonho, fazendo seu nome no mercado.

Landau começou cobrindo pautas locais, como os protestos em 2013, até que resolveu expandir seu trabalho ao nível nacional: — O óleo na Bahia, os Guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul, Brumadinho, a Amazônia com o garimpo e os indígenas... Eu tava totalmente nesse movimento de cobrir o Brasil, e aí veio a pandemia. Bem nesse momento em que eu tava conseguindo ter essa vida que eu queria, viajando e correndo atrás das pautas que eu desejava…

O descontentamento em seu semblante era nítido ao falar dos percalços que vieram com o início desse período conturbado. Seu trabalho consistia basicamente em ir a campo o tempo inteiro para fotografar, então o primeiro baque do carioca foi: “Não dá mais pra sair, então como eu vou trabalhar?”. Lucas então precisou se arriscar mesmo com todos os protocolos rigorosos da época: — Continuei porque não tem como parar. Apesar de ter cara de rico eu não tenho grana, minha família não tem grana. Sou muito dependente do meu trabalho, da entrada desse dinheiro que é a minha fonte de renda, meu ganha-pão principal e único.

Mesmo com todos os riscos do ofício, Lucas teve a sorte de não se contaminar. Fez o teste cinco vezes durante esse tempo e todos deram negativo. Apesar de tudo, ele destaca os cuidados principais durante o exercício do seu trabalho: máscaras, álcool em gel e isopropílico para o material e a câmera. Sobre as máscaras, Landau destaca que foi uma das coisas que mais chamou sua atenção com o início da pandemia: — Eu circulo por muitos territórios que não são meus, que eu não conheço, não tenho intimidade, não são minhas casas, então é muito importante nesses lugares e nesses processos, eu me despir de tudo o que eu puder pra ser eu mesmo e conseguir ser verdadeiro para acessar aquelas pessoas, pra elas confiarem em mim, entenderem a minha essência e confiar no meu trabalho porque existe muito fotógrafo vacilão. (...) E eu to falando tudo isso pra explicar como é importante que as pessoas possam me ver, entender… A máscara dificulta um pouco essa conquista de confiança. A expressão facial é uma coisa muito forte, o sorriso... a gente não tem mais essa conexão. A comunicação sem sorriso é uma dificuldade pra mim, passei a ter que treinar um sorriso com os olhos.

No meio de suas divagações sobre o quão frustrante era limitar o seu trabalho às pautas locais, Landau cita sua visita fora de hora até o Pará para dar continuidade às pautas que comandavam o auge da sua empolgação:

— Fiquei em casa ano passado de março a julho, até que chegou um tempo onde eu vi que não dava mais e fui pra pandemia (A troca de palavras fez o fotógrafo rir de si mesmo). Eu quis dizer: *fui pra Amazônia mesmo com pandemia, mas é bem isso mesmo, eu literalmente fui pra pandemia. Fechei com um amigo freela e a gente ficou um mês no Pará, o que foi ótimo, rendeu pra caramba. Consegui fazer um dinheiro que graças a Deus segurou uma onda até mais ou menos uns dois, três meses.

Imagem: Líder do povo Huni Kui/Ig:@landau

Desde então, Lucas não retornou mais ao local, alegando ter consciência dos riscos que envolvem viajar para tão longe tendo que lidar com povos tradicionais e com o alto perigo de levar a doença para eles, cujo sistema imunológico e anticorpos são bem diferentes e, principalmente, onde o acesso às vacinas é quase inexistente. No entanto, não anula uma possível necessidade de retornar, dados os problemas monetários que o fotógrafo prevê estarem se aproximando. Landau admite que sua situação financeira está de fato chegando em um estado crítico:

— Em Março não entrou nada, até postei no instagram, você viu. Essa é a vida de freelancer, eu sei que eu vou ter um dinheiro até determinado momento e depois tenho que pensar em uma outra coisa pra conseguir mais. E o que aconteceu foi que 2019 foi um ano muito muito bom, passei oito meses viajando e consegui juntar um dinheiro muito legal, uma real reserva de grana. Pela primeira vez na vida, o que eu estava gastando tava sendo menor do que o que eu tava recebendo, Fiquei super emocionado. Esse dinheiro durou porque eu não sou megalomaníaco, mas agora a reserva tá quase enxugada, acabou. Já estou colocando num panorama o que eu posso fazer para me segurar no meio dessa situação porque enquanto não tiver vacina pra todo mundo a gente não volta.

Empolgado em seu discurso aflito, Lucas chega a perder as estribeiras falando do atual governo, logo pedindo desculpas ao passo que meu bom humor o acalentou com uma concordância: — Chegou um momento onde o Bolsonaro influenciou a vida de todos — afirma —, não somente os menos favorecidos ou as pessoas que vivem no meio periférico, não, tá afetando até a mim, eu que sou um cara da zona sul do Rio, classe média. Imagina como estão as pessoas mais pobres, então?

O fotógrafo admite que as questões monetárias têm sido levadas até mesmo para a sua terapia. Como freelancer, as idas e vindas são comuns e a instabilidade já virou rotineira: — Essa é a nossa vida, a média é o perrengue.

A ansiedade, tópico sensível no qual se mostrou tremendamente aberto a falar, é antiga e se arrasta com os combos da profissão: — O que eu sinto é que o meu trabalho tem muita negatividade. Ir para a Amazônia com garimpeiro é muito interessante, emocionante e legal, mas ao mesmo tempo é muito triste ver a Amazônia daquele jeito. Trabalhar com indigena é muito rico, eu aprendo mil por cento a cada segundo, mas é muito triste... a cultura tá acabando, a FUNAI está sendo desmontada, tá todo mundo morrendo, tem lados muito positivos e outros muito negativos. Ir para Brumadinho foi muito pesado e traumático no sentido de ver a morte de muito perto, subir na favela aqui no rio o tempo inteiro, fotografar enterro de gente morta pela polícia... a gente tá em contato com muita coisa ruim.

Lucas conta que uma das formas de lidar com toda essa negatividade é recarregando suas energias com atividades de lazer. O problema nisso está, finalmente, no fato de que todas as coisas que o fazem recarregar normalmente, são inviáveis no período pandêmico.

— Sempre que eu faço uma pauta pesada, eu volto muito cheio, então quando eu consigo conversar com as meninas, encontrar com elas, alivia, ou quando chego cedo de uma pauta f*dida e vou pra praia dar um mergulho... não dá mais pra fazer isso. E mesmo que dê pra eu passar cedinho na praia quando tá tudo menos movimentado, não é o certo. Bate uma culpa. (...) Estou tendo que aprender a lidar com isso, como recarregar minha energia em casa. Tem sido interessante pensar por esse lado, tem dias que eu acordo, ponho uma musica e fico aqui no meu quartinho, fico dançando sozinho, aí já recarrego, já fico bem…

O período pandêmico, embora tenso, também foi tempo de somas na vida de Lucas, que conheceu Gabriel, seu atual namorado. Nos picos de altos e baixos emocionais, o fotógrafo afirma que a companhia de alguém tem sido muito importante, principalmente no que diz respeito a entender suas próprias questões e relacionar com o que acontece no mundo. Dentre suas formas de recarregar, assistir um filme com Gabriel é citada como uma das mais frequentes, assim como se reunir com as meninas do prédio no terraço comunitário.

De todos os processos possíveis para a busca de uma paz interior no meio do caos, o que nos coloca em uma posição similar nesses tempos de angústia, é a carência de contato. Independente de qual seja a classe social, todos os envolvidos na construção desse texto jornalístico sentem ou já sentiram sede de carinho. Um carinho que antes não percebemos ser tão importante na construção do nosso dia-a-dia e que na verdade tem grande participação nas nossas grandes batalhas e conquistas, servindo como um combustível invisível, mas plenamente palpável. Para Lucas, além do afeto, a fotografia (como arte, antes de trabalho) o coloca no eixo. Ele olha para a sua câmera no canto do quarto e admite que ela não está mais sendo usada como antes, mas que está sempre pensando em fotografia. Os sons das notificações do whatsapp ecoam desde o início da chamada de vídeo indicando seu contato frequente com pessoas em busca de novas pautas, explorando novas ideias. Landau emana paixão toda vez que fala sobre o seu trabalho e apesar das partes negativas, nem hesita ao dizer que a fotografia o “mantém no prumo e o dá um rumo”.

A veia fotojornalística já estava presente no Lucas desde a infância, quando saía pela rua onde morava para fotografar os estragos que as chuvas faziam no local que sempre alagava. O pequeno garoto que fotografava buracos na vizinhança, hoje documenta novas perspectivas de personagens improváveis aos 31. Landau é grato pelas experiências que a fotografia de moda (modalidade tão diferente da que hoje ele segue) o trouxe, mas definitivamente não se vê fazendo nada diferente do fotojornalismo atualmente. Antes de falar sobre si, o fotojornalista menciona as histórias que escutou antes de capturar com muito esmero, desde pautas sobre prostitutas na pandemia ao seu grande amor notório: A Amazônia. Lucas fala muito carinhosamente das suas vivências conhecendo o garimpo no local. Ele descreve a experiência como “entrar na cova do inimigo” e alega que em nenhum momento fingiu ser garimpeiro para se infiltrar e conseguir uma pauta. Deixava claro seu posicionamento em defesa dos índios através de seus próprios adereços de corpo (colares de guias indígenas, pulseira de índio...). Eles sabiam sobre o seu trabalho socioambiental e mesmo assim, Landau conseguiu passar confiança. O fotógrafo não compraria a narrativa básica do garimpeiro do mal, seu foco era buscar entender as histórias por trás das atitudes, o que rendeu ótimos resultados, além do surgimento de uma intimidade que o fotojornalista nunca buscaria encontrar logo ali.

Imagem: Acampamento de garimpeiros em reserva florestal/Ig:@landau

— Quando eu contei que era gay em uma roda de conversa, eles passaram a me chamar de “o diferenciado” (risos). Foi muito interessante porque em determinado momento, eles realmente queriam ouvir a minha história também. Estávamos nos sentindo tão confortáveis que chegou um momento onde as piadas vinham com naturalidade. Uma vez, estavam me apresentando a área e viram um buraco, olharam pra mim e disseram: E aqui é onde a gente joga ambientalista (risos).

No meio do relato sobre o grande apreço que Lucas criou com as pessoas do lugar, ele admitiu conversar com o garimpeiro até hoje: — Agora de manhã logo cedo eu tava trocando uma ideia com a esposa dele, professora do colégio de lá. Estou sempre conversando, falando com os organizadores da instituição indigena para a qual eu trabalho, perguntando como estão as coisas. Criei laços pessoais com a cidade e com as pessoas, é mais que trabalho, me sinto em família, por mais estranho que possa parecer, são garimpeiros né…

O fotojornalista também criou grande apreço pela cultura indigena e admitiu estar aprendendo caiapó. Suas experiências pelo Brasil o enriqueceram das formas mais engrandecedoras. Landau conhece os infernos e os paraísos do nosso país e se entristece com a força que o polo negativo tem. Ele diz que o fotojornalismo inclui lidar com a dor do outro de uma forma muito próxima e cruel e ao mesmo tempo, é preciso estar ali urubuzando, tirando foto. Todo o processo tem um fim importante, no final das contas. Mais do que dinheiro e sensacionalismo, as histórias precisam ser compartilhadas.

— Tudo choca muito, tudo impacta muito. O jornalismo é muito cruel, muito real.

E a realidade, totalmente sem planejamento, é de fato cruel. No Brasil, Landau fotografa desigualdade, morte e se surpreende ao ver que apesar de tudo, nosso povo é muito feliz e educado. Nas comunidades onde tudo é precário e pobre, as pessoas conseguem ser amáveis e encontrar vontade de viver.

— O Brasil me entristece, mas ele mesmo me dá esperança. Tem uma coisa muito rica aqui.

E ele encerra me desejando um bom trabalho, completamente alheio ao quanto foi importante para mim ouvir os seus relatos por quase uma hora. A importância de saber que existem pessoas diferentes em lugares diferentes do mundo passando por situações difíceis é imensurável a ponto de me trazer instantaneamente a ideia de que a pandemia invisibilizou a todos em certos graus, como em um processo que irei brevemente apelidar de astigmatismo social, onde focamos tanto em situações únicas que todas as outras saem borradas e superficiais aos nossos olhos.

Landau não foi a última pessoa que eu me dignei a ouvir com carinho e também não foi a penúltima, como segue a ordem desse texto. A última voz que eu ouvi está gravada nos documentos do meu celular e eu pude encarar o rosto do dono de perto.

Para chegar aqui é preciso voltar àquela segunda especial onde a crise de rinite me pegou de jeito. Foi somente a três dias atrás e eu tinha plena consciência de que ainda havia muito a ser feito dentro do que diz respeito à iniciar e concluir todo esse trabalho escrito, mas curiosamente (ou nem tanto) e para o meu desespero total, restava justamente essa pessoa para entrevistar. Dentro de toda a esfera que envolvia o tema desta reportagem e, contrariando toda a ordem cronológica que eu mesma criei para apurar as respostas, essa pessoa, que deveria ter sido a primeira, acabou sendo a última.

José Orlando é trabalhador autônomo há quase 28 anos. Aprendeu tudo o que sabia sobre vendas na marra para sobreviver e sustentar sua primeira filha, nascida em 94. O início de todo o seu histórico como pai de família é representado por um banco de feira, onde vendia frutas com sua esposa, Maria. Ele não permaneceu no meio por muito tempo e antes mesmo da chegada de sua segunda filha, já estava trabalhando com trocas e pirataria (de cd e dvd). Seus maiores clientes eram os próprios policiais vizinhos já que, de uma forma geral, pirataria é um crime banalizado nas cidades do interior.

José, hoje com 54 anos, estava sentado no chão do sofá paralelo ao meu, do outro lado da sala, tão confortável a ponto de estar sem camisa no meio do inverno quente do brejo da Paraíba enquanto conversava com sua esposa. Chamei-o para perto numa indagação repentina e direta, para espantar minha própria timidez. Deixei claro que gostaria de iniciar uma entrevista sobre ele e sobre o quanto a pandemia afetou o seu trabalho e ele veio meio acuado, um pouco envergonhado. Sentou-se no chão novamente, dessa vez aos pés do sofá onde eu mesma me encontrava ansiosa para começar.

Observei aquele homem que sempre esteve cercando os meus dias desde a infância e me perguntei o que eu conseguiria extrair dele. Lembro de fazer uma nota mental sobre o quão diferente é entrevistar alguém cuja história você já conhece e eu já conhecia a história de José. Ouvi seus relatos por anos a fio em todas as fases de minha vida e observei seus percalços de perto, pois eu tinha seu sangue correndo em minhas veias.

Pedi para que meu pai se apresentasse e recebi de volta um nome, sua idade e sua profissão. Me surpreendi com o quão pouco ele tinha para dizer de si mesmo, sendo que sempre era tão tagarela. Seu tom era sério, como quem tentava muito corresponder às expectativas da própria filha. Ele estava de costas para mim e em momento algum me olhou enquanto respondia as perguntas. Parecia concentrado em não errar ao falar das próprias vivências.

Perguntei sua primeira preocupação quando soube da pandemia e ele foi sucinto ao dizer que ficou triste por não poder se aproximar das pessoas que gosta: — Fiquei com muito medo de sair de casa. Saía pra falar com as pessoas meio cismado, sem saber se estavam com a doença. Foi muito preocupante, não podia mais correr atrás do dinheiro, tinha que ser tudo através da internet.

Suas vendas eram, em sua maioria, feitas na rua ou na casa dos compradores. Com a chegada dos grandes serviços de stream, a pirataria de dvds não dava mais tanto dinheiro, mas ele ainda conseguia sustentar alguns clientes. Seu trabalho principal agora consistia basicamente em oferecer aluguel de eletrônicos que ele mesmo comprava e serviços de impressão feitos em sua própria casa, daí vinha maior parte do seu sustento. Sua forma de tentar se proteger sem parar de trabalhar, foi diminuindo a frequência com a qual saía de casa, trabalhando só no expediente da manhã: — Eu não podia fazer mais do que isso, precisava ir nas ruas para vender alguma coisa, é o jeito que eu trabalho desde sempre — justificou.

Assim como meu pai, cerca de 24 milhões de pessoas são trabalhadoras autônomas no Brasil (IBGE, 2019), número que só aumenta com a continuidade da pandemia. As pessoas buscaram em seus próprios negócios e trabalhos informais uma solução para o desemprego.

— Eu recebi o auxílio por um ano e no outro fui cortado e aí as coisas começaram a complicar mais. Além de estar trabalhando menos, o desemprego fez as pessoas consumirem menos também.

José também manifesta seu descontentamento ao dizer que o dinheiro não era muito e não dava para nada, bem como reclamou Adeilma. Contudo, o pouco e o nada traçam grandes diferenças na vida dos que precisam mais, então ele termina concluindo que “não ajudava tanto quanto deveria, mas era alguma coisa”.

Contemplado com a parede à sua frente, meu pai divaga sobre o tempo que estamos vivendo. O cenho contraído mostra um esforço para se entender e dar voz aos próprios pensamentos: — Eu penso muito na vacina. Não entendo ao certo por quanto tempo a imunização vai ser eficiente para a gente, talvez depois de dois anos a doença volte de novo… isso me assusta. Às vezes eu penso que nunca vai acabar.

Ele pontua a incompetência de um governo lento sob o sentimento de esquecimento que predomina às vezes, mediante a falta de políticas eficientes para ajudar pessoas como ele.

— Os requisitos para receber uma miséria é ser o mais miserável possível. Eu não fui o suficiente, por isso fui cortado do “benefício”.

José sente falta de caminhar no fim do dia, fazer exercícios ao ar livre era um hobby que as máscaras tornaram menos prazeroso. No começo, ele se sentia sufocado e até custou a aderir o acessório, mas mesmo agora que se tornou um hábito, fazer exercícios com ela continua sendo duplamente sufocante: — Se tudo isso acabar, eu quero voltar a fazer as mesmas atividades de antes, correr, me livrar da máscara… Enfim, a liberdade de ter tudo de volta sem a doença nos dá muitas opções.

Nossa conversa findou mais rápido do que eu imaginava. Ele me olhou surpreso, sorrindo e perguntando se havia se saído bem. Disse que poderia passar o dia respondendo perguntas, num conforto que não se assemelhava em nada a sua postura inicial. “— Você foi muito bem”, eu disse em agrado enquanto o observava indo até a varanda para contemplar o fim da tarde.

De todas as grandes experiências jornalísticas que eu já tive durante a minha prematura vida universitária interrompida pelo EAD, nenhuma foi tão extensa quanto dar voz a essas quatro pessoas que sentiram na pele todo o desgaste pandêmico. Extensa no sentido de tomar tempo, gerar pensamentos e reflexões, no sentido de perturbar por instigar uma empatia quase palpável. Viver e sentir histórias que não são as minhas, apesar de simples, me pareceu necessário e digno de tornar-se rotina. Não mais irei embaçar outros campos de visão.

Acesso ao livro: https://memoriasdevidaeluto.we...