Mãos calejadas
Eis aqui uma narrativa regada a fluídos corpóreos e choros descompassados. Embora não muito recente, foi embasada em dias de dor e esperanças de retorno que ainda perduram algumas realidades duras. É sobre Manoel da Costa, operário de uma obra grandiosa — daquelas onde ele sabia que só entraria para construir — pai de três filhos de porte físico miúdo e marido de Lica.
Propenso a todos os males e perigos da profissão, Manoel já tinha adotado um costume à vida que tinha. Sequer se passavam por sua cabeça ideias de evolução, pois a sobrevivência se sobressaia ao conforto. E mesmo que de fato o pensasse, por onde começaria? Para sua escassa formação, sabia que nada além de trabalho braçal o esperava.
Seguindo o piloto automático, Manoel protagoniza uma rotina árdua e mecânica. Acordava às cinco da manhã desfrutando do pão e da manteiga com pressa. Lica começava o dia o fazendo companhia, passando o café com uma lentidão recorrente do sono pelo qual lutava contra. Não era sacrifício, era cuidado.
Ele saía sem ver as crianças, não tinha pressa durante o percurso (mesmo que normalmente sempre tivesse pressa). Teve ânsia em casar-se, pois antes havia tido ânsia em ter filhos. Na verdade, antes da ânsia veio a falta de escape já que pouco se sabia sobre como driblar a naturalidade de gerar vida.
Quando saiu da Paraíba em busca de emprego na Cidade Maravilhosa, pouco imaginava que a maravilhosidade era uma dádiva única dos que tinham os bolsos cheios. As oportunidades existiam, mas junto com elas um caminhão lotado de humilhações e piadas fundadas em um preconceito linguístico que ele sequer sabia ser fruto de xenofobia. Afinal, o que era xenofobia? Manoel sequer estava antenado às anarquias que predominavam nos anos 70. Não sabia qual era a moda, não desfrutava dos festivais, não era engajado nas lutas ambientais, não frequentava discotecas… era carente na filosofia da paz e amor (embora fosse muito pacífico) já que seu tempo era dedicado à sobrevivência. Era vítima antes de sua luta ter um nome, mas pouco importava diante dos grandes desafios de se ter uma família.
Alheio às ideias de descuido ou morte, Manoel não era mais cauteloso que o necessário. Tinha pressa e tinha fome, mas também precisava se atentar ao ofício para evitar a bronca dos superiores.
Durante o horário de almoço, de volta a sua casa, consumia o feijão e o arroz como se fossem massas finas, temperadas por grandes entusiastas da cozinha. Trazia consigo balinhas Xaxá e 7 Belo como sobremesa para as crianças, que se aglomeravam felizes em torno dos doces de banana, morango e framboesa. Voltar para o trabalho era sempre uma despedida meio triste porque nem sempre eram liberados para comer em suas casas. Almoçar em meio a obra significava produtividade.
Com tudo isso, ainda tinha seus colegas de trabalho. Pessoas tão cansadas e necessitadas quanto Manoel, que jogavam conversa fora e faziam o tempo passar amenizando as dores do trabalho, que mesmo com todas as dificuldades acabava por entreter e levar a cabeça para longe das contas.
Mas Manoel não esperava que aquele almoço rápido seriam as últimas lembranças de sua família. Escorregar do andaime foi um ato de descuido, mas o rompimento da estrutura foi uma fatalidade inesperada. Tão fatal quanto poderia ser um filme de ficção, mas a verdade é que ficção nenhuma transpõe as realidades bárbaras que nos acontecem na vida. O sangue e o suor do trabalhador desacordado no meio da avenida parou o trânsito, a desconjuntura notória do corpo, tornou-o irreconhecível.
— Se não tivesse quebrado, daria pra segurar nas ferragens — afirma Lica sobre a estrutura, anos após o acidente.
A viúva tinha uma expressão carregada mesmo depois de tanto tempo, brincava com as mãos sob um nervosismo palpável carregando marcas da idade que denunciavam cada minuto dedicado ao cuidado de três filhos pequenos, esses que cresceram sem um pai. A residência simples onde morava agora com o primogênito já crescido e casado, era aconchegante dentro dos padrões aos quais estava acostumada. Dona Lica sobreviveu a perda de um amor que esperava voltar todos os dias. Perdeu Manoel para o cansaço e a necessidade de sobrevivência.
— Ao mesmo tempo que foi um descuido infeliz, fiquei com raiva do dono do prédio. Acho que eu precisei culpar alguém.
E Lica teve as razões mais sólidas para isso, já que na época, a empresa quase se recusou a pagar indenização usando como argumento o depoimento de um pedreiro que chegou no momento em que Manoel escorregou. “O descuido do operário não foi responsabilidade nossa” — disse um engravatado qualquer.
— Alguns funcionários denunciaram a empresa por condições insalubres de trabalho. Se não fosse por isso, eu nem sei como ia cuidar dos meus filhos — continuou o relato — Montei uma vendinha na nossa casa com o dinheiro da indenização. As crianças viviam comendo os doces, mas eu conseguia um dinheirinho — sorriu fraco ao narrar os sumiços das balinhas 7 belo de framboesa e Xaxá de morango e banana.
Como Lica, outras viúvas perderam seus maridos para os trabalhos braçais no Rio de Janeiro dos anos 70, como era o caso da Dona Lúcia e da Dona Tereza, vizinhas da mesma comunidade até os dias atuais. Carlos da Costa e Eduardo de Sousa, respectivamente, maridos das viúvas citadas, também são protagonistas desta narrativa. Foram vítimas de acidentes na construção da Ponte Rio-Niterói, penando nas estruturas das ferragens fabricadas na Inglaterra e chegadas ao Brasil via transporte marítimo.
Com as mãos calejadas e trabalhando no calor escaldante que o nosso sol reverbera, pais e mães de família aos montes seguem na luta árdua pela sobrevivência. Em épocas de possibilidades infinitas, ainda existem pessoas movidas pelo desespero da sobrevivência e vivendo sob a ignorância resulta de uma desigualdade social incessante. Deixam como legado, os filhos que hoje vivem de utopias e sonhos de revolução, vez ou outra menos empenhados em mudar o quadro de sofrimento contínuo, pois o mundo é controverso demais com os frutos dos pobres.
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