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Análise: A VISITA DE JAIR BOLSONARO À ISRAEL, pelo ponto de vista de diferentes emissoras.

Em Março de 2019, Jair Bolsonaro fez uma visita oficial de quatro dias à Israel. A rede Record e a rede Globo de televisão noticiaram essa visita de formas diferentes, deixando claro um contraste opinativo nas duas emissoras. Para mostrar um ponto de vista lógico a respeito das abordagens utilizadas na hora de comunicar o acontecido, iniciaremos conhecendo as emissoras e suas bases ideológicas desde os seus respectivos surgimentos.

Fundada em 1965 pelo jornalista Roberto Marinho, a rede globo é a maior emissora do país e a terceira maior do mundo. Seu poder de influência sobre a cultura, a política e a opinião pública é inegável, apesar das diversas controvérsias em torno das suas relações com a sociedade brasileira. Seu apoio ao regime militar e a influência em eleições presidenciais do período democrático são exemplos de controvérsias que são usadas até hoje para colocar a TV Globo como um veículo de manipulação que constantemente busca o monopólio da informação.

A Record TV, por outro lado, fundada em 1953 pelo empresário e comunicador Paulo Machado de Carvalho, foi a terceira emissora inaugurada no Brasil depois da TV Tupi e a TV Paulista. A emissora regrediu muito financeiramente no final da década de 1980 e foi adquirida por Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, no início de 1990. Desde então o canal foi palco de grandes investimentos e hoje disputa pela segunda melhor audiência do país em revezamento com o SBT. Sendo regida por um líder religioso, a rede Record tem seus conteúdos altamente associados à valores tradicionais e familiares. Sobretudo, atribui ao seu jornalismo o status de “imparcial”.

Tendo em vista tais fatos a respeito de suas bases e seus impactos, chegamos ao questionamento principal: Como a notícia citada inicialmente foi passada nos jornais das diferentes emissoras?

O discurso inicial é parecido e as imagens da chegada do presidente são mostradas em ambas reportagens, mas os pontos de vista utilizados como base para narrar os feitos de Jair Bolsonaro em Israel, fizeram a mesma notícia tomar rumos completamente diferentes.

Enquanto na Rede Record são pontuados os bons motivos que acompanharam a visita e o aparente prazer do Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em receber o presidente, a Globo enfatiza o fato de Bolsonaro ter parado para cumprimentar uma grande fila de civis e militares, além de destacar que o ministro está sendo acusado de corrupção ao passo que tenta ganhar um novo mandato nas eleições que foram antecipadas, colocando a relação de amizade entre Jair Bolsonaro e o Primeiro-ministro como uma relação de conveniência, com o intuito de conquistar votos uma semana antes das eleições.

Na Rede Record, também é pontuado o fechamento dos acordos bilaterais nas áreas da saúde, educação, ciência e tecnologia, defesa e segurança cibernética, além de destacar a visita de Flávio Bolsonaro ao principal centro médico Israelense, enquanto a narrativa da globo coloca a visita à Israel centralizada nesse apoio ligado às eleições, incluindo em segundo plano, notícias a respeito dos conflitos violentos entre Israel e Palestina. Segundo a reportagem da Rede Globo, o presidente também havia recebido um convite para visitar os territórios palestinos, mas o convite foi prontamente negado. Tudo sendo relatado em cima de uma trilha sonora tensa que dá um tom completamente divergente do que a emissora concorrente passa. Na Rede Record, o tempo de tela que é concedido ao Ministro Augusto Heleno ao dizer que a visita aos Palestinos carecia de tempo é bem maior, talvez em uma tentativa de validar a informação e torná-la mais palpável.

Sequer é preciso terminar de assistir o vídeo para identificar o tipo de narrativa que as emissoras (como empresas) estão tentando passar. Enquanto o jornal da Globo tenta apelar para artifícios mais tensos na intenção de colocar a visita do presidente como algo completamente conveniente, expondo toda a situação obscura que constituem os conflitos entre Israel e Palestina e o quanto a visita seria beneficiária para a reeleição do Primeiro-ministro Israelense, a Record tenta criar uma imagem completamente dócil do governo, dando ao telespectador uma visão mais leve dos acontecimentos, sem conspirações ou quaisquer outras coisas, mantendo o que eles acreditam ser o “jornalismo imparcial”, mas isso só nos leva para o grande ponto em comum entre ambas as emissoras: A manipulação. Uma, feita de forma mais clara e dramática e a outra de forma sutil, quase imperceptível para uma parte menos atenta da população, mas ambas muito eficazes na hora de convencer.

Analisando as notícias de forma isolada, sem assistir ao noticiário do lado, o telespectador automaticamente já sai com uma opinião. Não existe imparcialidade quando apenas um lado é mostrado e nem mesmo quando ambos são mostrados. A imparcialidade dentro do jornalismo, é quase utópica. Os fatos podem não deixar de ser fatos, mas a colocação deles, a ordem na qual são trabalhados e o tom usado na transmissão dos mesmos é algo completamente individual. Colocando tudo isso sob a perspectiva das emissoras como empresas e seus interesses no decorrer dos anos, não existe um resultado diferente a esperar. Sendo ambas emissoras rivais em audiência e ideologias (uma vez que os jornais da Globo frequentemente se opõem ao governo e o dono do Grupo Record é um apoiador assumido do mesmo), elas buscam, cada uma com sua abordagem, alcançar um público específico e até conquistar um novo.

Levando em conta os posicionamentos públicos de aversão que as emissoras já trocaram no decorrer dos anos e colocando sob a perspectiva crua da Teoria do espelho (Jacques Lacan), faz sentido que um ideal se oponha ao outro uma vez que ambas emissoras propagam, à sua maneira, uma manipulação singela na hora de transmitir notícias. Uma é reflexo da outra, se assim formos colocar.

No entanto, há também o afastamento dessa teoria a partir do momento que a avaliamos dentro do campo jornalístico. Nesse sentido, a Teoria do espelho defende a objetividade e imparcialidade, logo, quando temos todos esses traços opinativos, o afastamento se torna nítido.